Pillion: uma história de amor em segundo plano
- Kassio Guaraná
- 26 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 31 de jan.

Quando “pillion” é uma palavra que se refere ao assento traseiro de uma motocicleta, simbolizando o papel de alguém que segue outra pessoa e abdica do próprio controle, o drama romântico de mesmo nome, dirigido por Harry Lighton, diz a que veio sem grandes subterfúgios. Estrelado por Harry Melling e Alexander Skarsgård, o filme britânico é uma exploração carismática dos temas de identidade, submissão e amor.
Baseado no romance Box Hill, de Adam Mars-Jones, o longa-metragem acompanha a história de Colin (Melling), um homem tímido e sem direção cuja vida monótona é abalada ao conhecer Ray, um motoqueiro sadomasoquista. À medida que o relacionamento avança e a subcultura de um clube de motociclistas gays é revelada, tópicos sensíveis da modernidade líquida desenham o BDSM como uma prática que, em determinados contextos, demanda escuta clínica.
Melling e Skarsgård entregam atuações melancólicas e precisas, funcionando como forças opostas de uma mesma engrenagem. Juntos, constroem uma reflexão incômoda sobre relações que mascaram abuso sob a linguagem do desejo. O erotismo que pincela as cenas do filme traz mais advertência do que apelo sedutor.

Do ponto de vista psicológico, fetiches são reconhecidos como componentes legítimos da sexualidade humana. Por exemplo, um estudo do Journal of Sexual Medicine indica que cerca de 40% dos adultos em países ocidentais já manifestaram interesse, curiosidade ou experiência com práticas associadas ao BDSM.
Por isso, o que Pillion parece questionar não é a prática em si, mas o terreno emocional em que ela se estabelece. É nessa sensibilidade que o diretor opta por uma denúncia silenciosa, sem didatismo, diante de um tópico delicado. O filme é um gesto de visibilidade diante de um tema tão complexo.
Enquanto a relação entre Colin e Ray ganha contornos cada vez mais intensos, uma atriz em particular surge como porto seguro em uma narrativa onde as ondas insistem em golpear a saúde mental: Lesley Sharp. Interpretando a mãe de Colin e rotulada por Ray como uma mente atrasada, é ela quem lembra à audiência que amor pode ser mais do que submissão.
Um romance que parece querer ser lembrado como um estudo artístico sobre a ausência de amor-próprio, uma ferida tão inflamada dentro da comunidade LGBTQ+. É um filme esteticamente belo para uma história atravessada por tristeza, sofrimento e ansiedade.
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