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A Jangada de Aço

  • Foto do escritor: Kassio Guaraná
    Kassio Guaraná
  • 25 de jan.
  • 2 min de leitura

São duas horas da tarde. A chuva ainda não caiu, mas já negocia com o ar. As nuvens sequestraram o céu, e o mar responde ao vento, sinalizando uma maré inquieta, dessas que antecedem tempestades de grande porte.


Em oceano aberto, uma grande jangada segue à deriva, levando tripulantes que ainda acreditam navegar em águas seguras. Eles ignoram as ondas de grande escala visíveis no horizonte. Até que o comandante decide falar. Não é um aviso. É uma certeza. Ele diz: “atenção, este objeto flutuante jamais afundará”.


O marujo se chama Donald Trump. Guiado por mapas antigos, ele redesenha a rota da jangada. O destino é um retorno. Um novo começo em 1832, quando outro comandante, James Monroe, lançou uma doutrina de navegação, que dizia o seguinte: “O Hemisfério Ocidental não admite interferências. Quem ousar atravessar essas águas será tratado como inimigo”.


Trump dispensa vocativos. Assume, sem verniz, uma tarefa que o império sempre considerou necessária: redefinir fronteiras. Outros antes dele, como Biden, Obama e Bush, navegaram mares semelhantes, mas com discursos diplomáticos e uma encenação moral cuidadosamente ensaiada. Todos, sem exceção, trataram nações como extensões do convés americano. Trump apenas remove o teatro.


O mar não para de se agitar. O sequestro do ditador Nicolás Maduro foi a primeira onda visível. Embora as redações ainda hesitem em ligar esse movimento às frentes russas na Ucrânia ou à agressão israelense sustentada pelos Estados Unidos na Palestina, a história raramente trabalha com eventos isolados. Ela prefere correntes.


Isso porque há uma ilusão persistente de que grandes guerras começam com um estrondo súbito. Nunca foi assim. Elas se constroem lentamente, em permissões e exceções que viram regra. Sempre apresentadas como provisórias.Discursos que rompem limites. Ações que avançam fronteiras. O esvaziamento silencioso das regras do jogo. A exposição da fragilidade de resoluções e discursos - estruturas que quase nunca priorizam vidas.


Por isso, Hiroshima e Nagasaki também surgem como rota simbólica no horizonte de Donald Trump. Em agosto de 1945, os Estados Unidos mostraram ao mundo até onde estavam dispostos a ir, inaugurando uma era em que o abismo passou a fazer parte de todos os cálculos políticos.


As jangadas seguem. Tripulantes precisarão se salvar em mar aberto. Mas a história ensina que não há boias para todos. E, desta vez, não existe uma União Soviética no horizonte para equilibrar as correntes.


O relógio agora marca três da tarde. O céu continua suspenso, e o mar, inquieto. O tempo perdeu o compasso.


Os calendários já não sabem em que século estão.


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